domingo, 25 de novembro de 2012

~~O voo da Águia~~


Hoje ouvi a história da águia Olímpia, que entra em campo antes dos jogos da equipe Lazio no estádio Olímpico, em Roma, na Itália e dá algumas  voltas no alto, ao redor do gramado antes de pousar sobre o símbolo do time ou nos braços do seu treinador. Soube que seu voo causa enorme comoção nos espectadores pela magnitude e beleza, aliadas ao amor pelo time por seus torcedores.  Ouvi uma  reflexão interessante  sobre a proporção do voo, o limite entre o amor e o respeito pelo treinador da ave, a possibilidade do possível voo no sonho do adestrador e a expectativa do voo ilimitado. Olímpia tem o voo sob controle, tem rastreador e só fugiu uma única vez retornando uma hora depois para a tranquilidade de todos. Ela cresceu nos apegos da custódia humana e talvez não sobrevivesse sozinha se a fuga fosse efetiva. Voa o seu adestrador por suas asas, voa a águia no limite por respeito acordado pela sobrevivência. E o voo ilimitado pertence aos entregues no infindável amor divino. Sou a frágil águia a espera do efetivo voo pela liberdade entregue ao meu amado adestrador, meu Deus de bondade. Nas lições diárias formatamos as asas, arriscamos o voo e o pouso, encaramos os limites. Entrego-me ao treinador, de olhos fechados, com a mão no fogo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

~~Cotidiano~~



Molhei as plantas,
o rosto com minhas lágrimas.
A tarde está linda
mas finda...
Tirei os brincos
só brilhou
os brincos-de-princesa...

A terra se perfumou...



Poema de Salette Scarpelli

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

~~Palavras Sagradas~~



Eclesiastes, 3

1. Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus:

2. tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado;

3. tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir;


4. tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar;

5. tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se.

6. Tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora;


7. tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar;


8. tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz.


9. Que proveito tira o trabalhador de sua obra?


10. Eu vi o trabalho que Deus impôs aos homens:


11. todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo a outro.

12. Assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida;


13. e que comer, beber e gozar do fruto de seu trabalho é um dom de Deus.

14. Reconheci que tudo o que Deus fez subsistirá sempre, sem que se possa ajuntar nada, nem nada suprimir. Deus procede desta maneira para ser temido.


15. Aquilo que é, já existia, e aquilo que há de ser, já existiu; Deus chama de novo o que passou.


16. Debaixo do sol, observei ainda o seguinte: a injustiça ocupa o lugar do direito, e a iniqüidade ocupa o lugar da justiça.


17. Então eu disse comigo mesmo: Deus julgará o justo e o ímpio, porque há tempo para todas as coisas e tempo para toda a obra.

18. Eu disse comigo mesmo a respeito dos homens: Deus quer prová-los e mostrar-lhes que, quanto a eles, são semelhantes aos brutos.


19. Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos brutos é o mesmo: um mesmo fim os espera. A morte de um é a morte do outro. A ambos foi dado o mesmo sopro, e a vantagem do homem sobre o bruto é nula, porque tudo é vaidade.


20. Todos caminham para um mesmo lugar, todos saem do pó e para o pó voltam.


21. Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens se eleva para o alto, e o sopro de vida dos brutos desce para a terra?


22. E verifiquei que nada há de melhor para o homem do que alegrar-se com o fruto de seus trabalhos. Esta é a parte que lhe toca. Pois, quem lhe dará a conhecer o que acontecerá com o volver dos anos?






Tela: Colheita de Enrico Bianco
        pintor italiano


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

~~Montanha~~


Sei que aqui descansa, 
encontra o que não há no mundo.
Quando não tiver pra onde ir,
venha nutrir-se aqui, neste espaço.
Terá abrigo, o que quiser escolher:
porão, sótão, caverna, vagão,
horizonte, casaco de pele,
nuvens de colchão.
O poema é mais que cama. 
Atravesse para o lado oculto,
conhece a senha, a água fresca.
Entre pela fresta estreita 
e fique um pouco.
Fique a ouvir meu coração, 
no meu silêncio, 
no teu momento vazio.
No seio da imensidão 
onde tudo se renova, estou.
O poema é montanha!


sábado, 17 de novembro de 2012

Haicai ~ 俳句

                                     

Solidão de roseira
é ver passarinho
fugindo da chuva.

autoria: Salette Scarpelli
                                                           

                                                          























                                        

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

~~Fácil~~




É fácil amar aquele que é fácil. 
Aquele que se doa e que é cordato, 
ou te recebe aos risos e abraços, 
é como um presente, conviver com alguém assim. 
Dádiva da vida por recompensa, só pode ser.
É fácil não estar na pele do outro, moleza.
É leve estar nutrido e sabido e debater 
sobre a fome e a ignorância, é fácil.
Julgar então, somos todos competentes.
Mas, e quando aparece o mau humorado? 
E quando surge aquela que só reclama? 
E o que fala alto? E o fofoqueiro?
E aquele que fala pelas costas? 
Te parece fácil ou viras as costas?
É muito mais fácil ir pelo caminho fácil. 
Melhor ficar nas relações de troca de favores,
eu te amo porque você me ama, 
eu te felicito porque você me felicita. 
Uma convivência morta, aparente, 
convencional, superficial, política.
Ah, o mundo é um estado de interesses!
Cumprimentar quem te cumprimenta, 
Parabenizar aquele que não o esquece.  
Desafio é permanecer no amor em meio
às adversidades e obter o mérito:
A delícia de vivê-lo de fato e ser grato 
aos que facilitam o dom de amar, por nada.

Dione Scarpelli




Foto:   O rebelde anônimo ao desafiar  os tanques chineses, 1989,
nas ruas de Pequim, durante protestos contra o Partido Comunista.
   



quarta-feira, 31 de outubro de 2012

~~Fonte Celeste~~



Divina fonte, foz de vazão inesgotável,
obra frequente de aquarelas mutantes,
auroras constantes de amor infindável.

Rainha dos pássaros e de tantas cores,
espelha no lago o brilho em movimento,
espalha  no vento teu ritmo existencial.

Molha a semente que brota e não geme,
sustenta o crescer dando apoio à raiz
regala a fartura da exuberante colheita.

Transbordante vida, que renova criaturas
e arrebenta redes em cardumes imensos,
transporta no barco a essência do amar.

Fonte, que reflete nas pedras a luz do luar
e espalha na areia grãozinhos brilhantes,
faz desta voz riacho de canções serenas.

Que umedeça o pó do deserto distante,
aplacando a ânsia no sussurrar amável
vertendo-se em ondas de água potável.

Dione Scarpelli

Imagem: Cataratas do Erawan na Tailândia




terça-feira, 23 de outubro de 2012

~~Conversa com a Menina~~





Isabella quer um cachorrinho, ela sabe como é bonitinho.
O que ela ainda não sabe, são as artes do filhotinho.
Ele fará xixi  no caminho e tropeçará no cocozinho
e ela terá que limpar tudinho e levar para um cantinho
até o sapeca aprender onde fica o banheirinho.
Depois ele morderá de tudo: a mão da melhor boneca,
o pé da cama novinha, a calça do pijama, a escova,
a esponja, o lápis, o tênis, o chinelo, o fio da tomada.
Morder para a criatura é como chupar chupeta,
mas como você é esperta e já anda de bicicleta,
não será muito difícil, será assim no início, 
depois, quando o bichinho crescer, se carinho receber,
vai brincar muito contigo, será seu melhor amigo
e a melhor companhia na hora de passear.
Ele vai te esperar chegar e quando você demorar,
não vai nem querer comer, você vai ver... 
E se você ficar triste, ele te assiste até ver você sorrir.
Mas seja responsável e jamais o abandone pois ele
fará parte da família, seu animal de estimação será o cão
que levará o seu nome, como sobrenome...

sábado, 20 de outubro de 2012

~~Palavra Viva~~



Alguma coisa pulou no meu colo,
também pulei, levei o maior susto. 
Não vi o que era, dei logo um grito,
arrepiou a pele, teria sido um grilo?
Saí do sofá, olhei ao redor, nada.
Subitamente senti o coração diferente
comecei a respirar profundo, calada.
Então um riso despontou no rosto, 
que por gosto, soltava gargalhadas.
Olhei pro livro desconfiada e já era,
no íntimo, estava totalmente mudada.
Foi ela, a palavra viva, que invadiu,
entrou, se alojou no coração a mil.
Agora quer fazer morada, a danada.
Entra, clandestina, mas aviso logo:
sou despreparada na arte, reparte.
Não me faça chorar a toa e prometo
te darei a alegria, farei a minha parte.




ilustração de Jean G. Villin
para o livro As Reinações de Narizinho
de Monteiro Lobato, 1931













~~Romã~~



Plantou um pé de romã 
de uma boa linhagem,
veio de uma muda anã
e verdejou em folhagem.

Brotou na mão do amor,
água, barro, sol e vento
a muda explodiu em flor,
a vida no seio do tempo.

Agora, desfile de frutas,
as princesinhas coroadas
doam chá, sabor de cura,
talismã de gotas sagradas.




A imagem é um detalhe da pintura A Madonna da Romã de Sandro Botticelli.
               
              
  
         

sábado, 6 de outubro de 2012

~~Alívio~~


A palavra esperança reúne
o esperar e o confiar.
Espera-se uma coisa boa,
confia-se no tempo favorável.
Quando houve o Dilúvio,
lá longe, muito longe...
A espera era a chuva parar,
confiavam no bom tempo.
Até que o esperado chegou,
Noé enviou um pássaro
que atravessou o arco-íris
e trouxe um raminho no bico,
era primavera, soltem os bichos.
O porto da esperança do Dilúvio
para aquele que confiou, foi alívio.

Dione Scarpelli



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

~~Pequeno Tributo ao Padre Antônio Vieira~~




Pequeninos trechos de dois sermões:


...Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam...



... Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos,haviam de achar homens pedras....



Padre Antônio Vieira era chamado pelos índios de Paiaçu, Grande Pai.

~~Análise~~





Quantas coisas para se falar
penso que não caberá aqui.
Ouço sinos quando ando,
desde uma meia-noite
a muitos anos atrás.
Sinos a meia noite?
Sim, quando passávamos...

Tantos momentos intensos
que não cabem nesse lugar.
Aquela ventania por entre as mãos
enquanto a mulher cantava
e proclamava a glória
do Rei dos Reis
ao meu lado?
Ventania nas mãos?
Sim, mas eu abri os olhos...

Muitas imagens que passam

é melhor abrir a janela
antes que elas invadam
e nos coloquem pra fora.
As horas redondas que chamam
desde o relógio branco que ganhei
trocado por dois pedaços de bolo.
Trocou bolo por horas?
Sim, um anjo me ofertou...

São tantas noites de mel
que não cabem nessa esfera.
Posso pintar um quadro
cada cor mostrará o encanto,
posso recitar um canto
e se a voz embargar ao ponto
do espírito querer contar,
se calar, brilhará em luz 
e irradiará esse jeito de amar.
Posso bordar um ponto dourado
e se sair pra passear 
levarei por onde passar
essa essência de surpresas.
Noites de mel?
Sim, meu amor impossível,
amante invisível, sonho de valsa...

Tenho tanto a transbordar

que não cabe mais aqui dentro,
abra a janela depressa  
têm flores que querem entrar,
e as aves tão cheias de cores
que tomam o meu lugar?
Meu corpo formiga inteiro
o que brota do fundo do peito
precisa do espaço infinito,
faça uma análise então:
Sinto tudo muito mais bonito.



O rosto de Tarsila do Amaral, pintado por ela.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

~~Misterioso barco~~



Onde me levará o estranho barco em que me
encontro atenta e viva dentro de um sonho?
Navego no mistério tomado pelo leme que
me leva solta, entregue a um laço frouxo a
envolver  meu corpo em finos panos leves,
de aromas raros, que entram pelos poros e
transbordam suores em tremores de febre.
Onde vai dar o rumo que não temo, mesmo 
quando sopra forte o vento e arrasta a nau
no barulho da velocidade, oceano adentro?
Um sol morno aquece a pele em dormência
e traz uma sensação de leveza como se fosse
o amor a me tomar inteira com grande força
e milagre que extravasa em êxtase contínuo.
Para onde me levará o destino que desliza
comigo nessa nave fantástica de enigmas?

Dione Scarpelli

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

~~Iglu~~



Existe algum livro de auto-ajuda
que ensine como construir um iglu?
Pode achar graça mas estou
no primeiro passo da palavra.
Acertamos quando ousamos errar.
Depois da aula eu te pego,
não você me pega.
Fico sem graça sem a tua graça.
Quando vou dormir 
recolho os meus sonhos
para baixo do travesseiro
onde distribuo cores.
Estou disfarçada na fantasia
como me reconheceu?
Ah, escapou uma pluma original!
Pratico mimetismo telepático.


Foto National Geographic Russia

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

~~Nina e o Papagaio da Vizinha~~


No mesmo quintal da Nina mora a vizinha e o papagaio da vizinha, que também tem um cachorro e duas tartarugas com nadadeiras.
Nina adora o papagaio da Loira, a vizinha, que chama o papagaio de Louro.
Todos os dias Nina desperta com os gritos da ave que se sente em plena floresta mesmo dentro da mínima gaiola com um pequeno poleiro. E Loira, mulher que fala alto, grita da cozinha:
- Louro, Louro, ha! ha! ha! E o Louro dá risada! 
Nina guarda as penas que o Louro solta, todas elas com tonalidades variantes e cores fortes, verde com metade vermelha, verde com reflexos azuis, verde com amarelo, verdes inteiras, azuis e vermelhas, ela guarda todas que consegue, pretende fazer um cocar. Já guardou algumas minhas também, que são brancas. O Louro é bem animado mesmo nos dias chuvosos, apronta algumas artimanhas, quer chamar a atenção. Quando quer companhia, vira o frasco de água e fala: - Ah, Louro, outra vez! Como a Loira sempre diz. Ele também faz fofoca, é só chegar uma visita e começar a falar mais baixo que ele repete: - cra, cru, cri, cri, cra, cra, num tom pequeno igual ao das fofoqueiras da casa. Também canta, assobia, chora, dá gargalhadas e fala palavrão. Apenas um, que eu não vou dizer qual é. Melhor aprender a assobiar do que falar palavrão!
Numa certa tarde de temporal, a Loira perdeu uma de suas tartarugas, que mesmo de nadadeiras, arriscavam uns passeios pelo quintal, se arrastavam. E o macho foi embora na força da enxurrada. 
Nina voltou da escola e foi conversar com a vizinha que lhe contou a perda. A menina então perguntou para a mulher porque ela não soltava o Louro para ele passear no quintal no lugar da tartaruga. Loira, analfabeta de letras mas não de números, disse que alguém poderia roubá-lo e que o Louro custava muito caro, além disso ele poderia voar e fugiria, assim ela teria que cortar as suas asas. Nina ficou apavorada e disse: - Nunca! Eu não deixo você cortar as asas dele! Eu escondo a sua tesoura e fico na frente da gaiola. A menina cuidava da ave como se fosse dela. Olhava com atenção ele se alimentar e coçava sua cabecinha com a pontinha do dedo para lhe fazer carinho. Sempre levava uma fruta e colocava pelas frestas da gaiola e então percebia que ele olhava pra ela.
Até que um dia a Loira falou que cortaria suas asas para que o Louro pudesse caminhar um pouco pela sala. Nina muito devagar foi ao quintal e sequestrou a gaiola. Levou para um canto escondido e quando a Loira percebeu foi atras dela. E a mulher gritava: - Nina, cade o Louro, Nina? A menina num silêncio total. Daí a Loira falou: -Louro, Louro!! E o Louro respondeu: Louro! Acabou o esconderijo. Só restava correr, e foi em corre-corre danado, uma brincadeira de pegar e o Louro gargalhava na gaiola.
Eu que estava olhando tudo do telhado, achei muita graça ao ver o Louro voando pelas mãos da menina para fugir da tesoura, ele ria, ria, ria. Eu também! E a menina, depois de uma queda, chorou.
Depois de acalmá-la com um copo de água com açúcar e carinho, ela entendeu que o bichinho não perderia as asas e sim parte de suas penas. Nina foi corajosa e o Louro voou pela primeira vez. As vezes ele me olha quando chego pela manhã para fazer-lhe um agrado e sempre olha quando voo de novo.


~~Musgo~~


Estava vendo nascer a lua no
brilho da pedra enquanto te lia.
Vi uns pontos verdes de musgo
úmidos no veludo da nostalgia,
do desencanto frente ao novo.
Tocou o palpar da melancolia,
a ausência da presença pura
da luz empoeirada da cultura.
Prática, ouro dentro do vício,
grandeza que acalora, habitua
e distancia do agora da aurora,
inaugura um voo que não flutua
antes que venha o calor da fonte.
Lento é lapidar a pedra ao natural
mas ela reflete o esplendor da lua.
Sentinela do saber o que procura?  
Pretende na fornalha íntima sentir
as plumas que aquecem sonhos?
E caibam no cerne da tua calma 
e acalmem a ânsia do que virá. 


Dione Scarpelli

terça-feira, 25 de setembro de 2012

~~Final da Quinta Elegia~~

Anjo: talvez haja uma praça que desconhecemos, onde, 
sobre um tapete indizível, os amantes, incapazes aqui,
pudessem mostrar suas ousadas, altivas figuras 
do ímpeto amoroso, suas torres de alegria, suas trêmulas
escadas que há muito se tocam onde nunca houve apoio:
e poderiam diante dos espectadores em círculo,
incontáveis mortos silenciosos. E estes arrojariam
suas últimas, sempre poupadas,
sempre ocultas, desconhecidas moedas de felicidade
para sempre válidas, diante do par
verdadeiramente sorridente, sobre o tapete
apaziguado. 


Rainer Maria Rilke

domingo, 23 de setembro de 2012

~~Bicho da Seda~~


Permita-se sonhar, sem se preocupar.
Não há redoma, há mel no lagar.
Sinta,  sinto o seu coração balançar.
O voo é sem hora ou lugar, 
tem instante, bastante.
A melhor hora é agora.
Não se preocupe comigo,
sou vacinada em várias esferas.
O amor está no amar, bicho da seda.
Não me leve a mal, eu te levo bem.
Estou numa missão espacial,
quer dizer, especial.
Não sou daqui, estou aqui.

Imagem: Poster Oriental em Seda, 
                 desconheço o autor

sábado, 15 de setembro de 2012

~~Albina~~


Num dia de minhas dúvidas
quando questionei o mundo,
virei as costas pro tempo e
nem quis ouvir a voz divina,
percebi uma  presença rara
aquela criança, bela menina
de fartos cabelos trançados,
brancos, viçosos, brilhantes
ao meus lado, na minha cara,
sentada no colo, mão da mãe
a limpar seus óculos de grau.
No entardecer vejo-a de novo
exuberante, firme e crescida,
e as tranças de pontas soltas.
Lá vem a vida e seus enigmas.
A beleza de tão rica, acaricia.
E a flor branca do bem querer
revela a virgem no alvorecer
a brincar na intensa claridade
com seus lisos e longos fios
dos tons alvos da eternidade,
no pescoço à mostra, um colar.


Imagem: raro beija-flor albino, Tesourão (Eupetonema macroura)




















quinta-feira, 13 de setembro de 2012

~~Narrativa~~


Em que pensas? Indagou o professor, não prestas atenção à aula!
Faça uma narrativa sobre esse enredo, o que pensas. Vale nota.
Será uma história ardente, pensou a novata.
-Ardente não basta! Soprou o diabinho do lado esquerdo, tem que queimar!
-Queimar não basta, precisa emanar perfume, disse o Anjo do lado direito.
-Precisa queimar ao ponto de desintegrar nas mãos do leitor! Falou o diabinho. Vai vender aos baldes!
-Precisa ser para sempre, valerá muito mais. Soprou o Anjo.
Deverá ser os dois, pensou a iniciante, mas não tenho gabarito. Não tenho o que o Mestre possui, o conhecimento pleno da linguagem, os meandros do verbo, a doutrina. Tenho somente posse de vivenciar esse Realismo Fantástico, que me leva pro mundo da Lua.
-Não basta! Precisa vivenciar a realidade fantástica, senão não queima! disse o diabo.
-É o suficiente, falou o Anjo, é um dom!
Pensativa, a aluna começou a imaginar tal desafio mas gostaria mesmo era de ler pela voz do Mestre, dono da letra, essa história de romance imaginado,que ela fantasia e que ninguém acreditaria.
-É melhor que seja logo, antes que saia tiroteio! Nem preciso dizer quem falou!
-Todos sobreviverão, é apenas uma ficção! Cantou o Anjo enquanto puxava a orelha do diabinho.
Ela voltou à sua viagem e deixou um pouco de lado aquela pressão, afinal poderá escrever sobre o que quiser. E pôs-se a sonhar.

Desenho de Pablo Picasso, Sleeping Woman

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

~~Mínimo~~


ele é tão pequenino
parece uma borboleta
mínimo no meu caminho 
imenso no seu destino
passa no seu voo à jato
marca um vinco azulado
do lado ao outro da rua
em nado no nada do ar
uma versão toda pura
da beleza em velocidade
num coração de filhote
bailado do passarinho


Dione Scarpelli


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

~~Amante Imaginário~~


Ele me leva pra dançar
e rodamos o salão inteiro.
Saímos do baile felizes
de mãos dadas, ligeiros.
Vamos caminhar ao vento
falamos pouco, mãos unidas.
Chegamos ao cheiro da praia,
guardamos os nossos sapatos
no guarda-volumes secreto
e andamos descalços na areia.
Contamos algumas histórias
de como fabricamos estrelas,
o doce não incomoda,
aquece com o sol da lua.
Sentados sob o luar,
os rios de risos soltos
mergulham no mesmo sal
e navegam o infinito mundo
destemidos em tantos planos,
abrem alvoradas distantes
temperam os vendavais.
Algum dia voltarão,
buscarão os sapatos guardados
para o baile de carnaval.
E sairão de mãos dadas
para falar das estrelas.


Foto: Salinas no Rio Grande do Norte



~~O Som do Coração~~


A solidão não dói. 
O que dói é a multidão, 
num pequeno espaço.
Gosto da sinceridade do silêncio.
No silêncio não se ouve 
falar de ninguém,
ouve-se o batimento cardíaco,
um ronco de motor,
a voz de um bicho,
o som do respirar,
um riso íntimo,
um lamento.

Um som sincero é o silêncio.
Amigo da solidão.
Aquele abraço sentido
que me abraçou sem gemido,
distante, presente de amigo
próximo, único, imensidão.

Tem dias que a palavra é muda
e fala sem um sussurro.
Agradeço o encontro do abraço 
aquele de sempre que eu preciso
diário, em qualquer horário,
o seu.